domingo, 10 de fevereiro de 2013

A trava

Já se passaram os tempos
Em que minha angústia era versificada
E às vezes quase bem metrificada.

Agora as palavras fogem de mim.
E a metrificação não passa de equações
As quais nunca, na vida, vi.

Sou consumido diariamente
Por uma dose de impaciência,
Por uma dose de conformismo
E por uma dose de burrice.

Sinto-me o cérebro se putrefazer
E meu único valor se desfazer
Em uma neblina reservada pra velhinhos.

Já troquei o verbo "andar" por "vagar".
Pois agora me sinto como uma alma perdida,
Deslocada de seus propósitos e aspirações.
Deslocada de suas reais qualidades.

Se esse é o começo do fim,
Então começo dando "adeus"
À prosa e à poesia.
E finalizo dando "boas-vindas"
À leitura e à agonia.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Ritmo dos comportamentos

Profundos, dentro de sua cabeça,
Sentimentos embaralham circuitos
Imperfeitos em frente à discrença
Em que porá em prática os bons intuitos.

Por que tem estado tão temeroso
Em relação à valsa das desavenças?
Dever-se-ia o fato à perda de suas crenças
Na competência de um defeituoso?

Vejo que você já a dançou inúmeras vezes
E, como esperado, só a ruína alcançou,
Sem saber se o homem defeituoso consertou.

Você passou a se abstir dos rítmicos prazeres
E agora a pista de dança lhe traz arrepios
Pois, em sua cabeça, circulam ritmos vazios.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Comitê de Educação

Cala-me indiretamente
E confunde minha mente
Através de tolas proposições
Às quais não são permitidas oposições.

Tudo o que você faz é manipular as informações
Para não permitir que meu processo cerebral prossiga.
Pois lhe é conveniente uma sociedade em ignorância
Onde eu e todo o resto somos obrigados a engolir suas verdades.

Você se acostumou com esse regime alienante
E se convenceu de que ninguém seria ousado o suficiente
Para questionar o que há atrás de sua imagem social triunfante.
Mas note que silêncio não significa ausência de pensamento.

Algo falou mais do alto que a ética da identidade,
E agora sou o hospedeiro de uma verdade incerta.
Mas não precisa de tentar se livrar de mim por tanto,
Pois a ameaça está na sua paranoia de preservação.

Você reparou na gafe que foi
Apostar seus sentimentos em mim
Quando tudo o que eu menos queria
Era ter malditas opções de amor.

E desculpe-me, não é você que me fará acreditar
Na mutação histórica que você mesmo gerou.
Pois a controvérsia de suas proposições
Ainda é mais legítima que elas próprias.

Compreenda que, um dia, a civilização pela qual você tanto zela,
Através de seus cuidados "em virtude" da ignorância,
Arruinar-se-á irremediavelmente.

Pois eu não serei o único hospedeiro
De uma verdade incerta.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Estado do mundo

Cama forrada, roupas bem lavadas,
Pertences em seus devidos lugares.
Noites bem dormidas, família estável,
Sorrisos para serem sorridos.

Se tudo está em devida ordem,
A paz passa a negociar com a desordem.
E se algo sai de seu lugar programado,
O tormento passa a encalçar os desesperados.

Olhe bem os meus olhos e perceba
Que há um desesperado à sua frente.
Olhe bem para o estado do mundo e perceba
Que estamos perdendo algo importante.

Pois enquanto o caos final toma forma para aniquilar,
Você só insiste em apontar minha incompetência,
Ignorando todo o sofrimento advindo de nosso ludibriamento.
E uma vez que nossas promessas saíram de seus devidos lugares,
O tormento, obstante, embarcou em nossas sombras pesadas.

Ninguém se salvará.

Cabelo cortado, barba aparada,
Cabeça externa em perfeito estado.
Músculos fortificados, ossos calcificados,
Porém um coração em batidas obscuras.

Se o mundo se encontra em equilíbrio,
Uma bala de canhão basta para desorganizá-lo.
E se o mundo atrasar por um segundo,
Todos nós sucumbiremos diante de um Sol furioso.

E neste cenário de fenômenos desastrosos,
Nós nos agarramos a princípios justificáveis, mas injustos;
Camuflando a verdade sob contextos controversos.
E lá vou eu sofrer debaixo de cobertores limpos,
Enquanto o tormento arranca-me os fios deste cabelo bem tratado.
Um por um. Um por um.
Promessa por promessa.
Nós estamos vivendo devidamente?

"Todos se salvarão."
Mentira.