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domingo, 14 de outubro de 2012

A Tarde

Naquela tarde de segunda, aparentemente igual a todas as tardes, lá estava eu caminhando sobre as mesmas calçadas indiferentes de Nowherescity e entre os vultos humanos que se deslocavam às suas designações pré-programadas. E eu provavelmente não era uma exceção ali, embora eu estivesse alterado os horários exatos que me haviam sido programados.

No meio daquela multidão desfacelada, notei um rosto apressado que se deslocava descompassadamente com o resto da legião. Era como um humano rodeado por manequins. Notório. E para a minha surpresa, eu o conhecia. Levantei minha mão direita balançando-a, e mudei a expressão de meu rosto a fim de chamar atenção. Falhei. Tentei novamente com insistência. Seria muito vergonhoso que o homem passasse por mim sem notar-me as sinalizações. E então finalmente notou! para o meu alívio. Minha face sorriu educadamente e nos cumprimetamos sem sincronização - o que já era esperado de mim. E eu não tivera, a princípio, intenção de iniciar uma conversação, mas iniciou-se por iniciativa do outro homem. E que conversação vaga. Soava como uma medida desesperada de gerar assuntos. E por um momento me senti envergonhado, pois não conseguia semear as ideias as quais eram iniciadas por ele. Senti-me também como um obstáculo para a corrente humana que por ali passava. Sob aquelas circunstânceas o tempo parecia ter a velocidade reduzida, e minha atenção parecia se tornar mais discriminativa.

O conversador então alterou sua face repentinamente, virando-a para o lado com um ar de surpresa. Também virei a minha, com ar de dúvida, e então já não éramos mais dois, e sim quatro. Curiosamente, duas caras conhecidas se aproximavam bruscamente - uma de garota e outra de rapaz. Também estavam de passagem por aquelas calçadas tesas. Eu permaneci fitando a garota com um certo ar de demência, pois as informações chegaram rápidas e meu cérebro ainda tentava acompanhá-las. Processava-as. "Que surpresa", eu disse enquanto cumprimentava-os. Havia já muito tempo que não via os três, o que era uma grande coincidência sob circunstâncias corriqueiras. Ou talvez uma façanha do Destino. Este costuma nos fazer surpresas cujas intenções costumam passar despercebidas. Pergunto-me se essas tais intenções estavam miosteriosamente presentes naquela tarde.

Os assuntos conversados logo quebraram dando espaço a novos. Uma nova atmosfera surgia e me tornava alheio ao que era tratado. Mesmo assim, eu continuava doando-lhes minha atenção. Não entenda errado, isso não me incomodava, eu só não sabia se minha presença se fazia oportuna naquela ocasião. E o rumo daquela atmosfera parecia imutável, até o nome de uma certa Pessoa ser citado.

Citou-se um nome, e o pronunciador passou a me fitar por um momento como se aquela palavra não devesse ser proferida estando eu pelas proximidades. Um curto período de silêncio caiu sobre nós, e então minha amiga o quebrou ao tornar a falar sobre o tal Indivíduo, com uma certa empolgação, como se aproveitasse de uma oportunidade maliciosamente. Fiquei com ar de dúvida. Sua voz falava sem hesitação alguma, e seus olhos estavam antenados em mim. Por mais que não soe assim para qualquer outra pessoa, para mim soava como uma quebra de contexto. Seria uma tentativa de provocação?

O ambiente estabilizou-se ao que era normal e novos tópicos discorreram-se. Até que a garota puxou seu colega pelo braço afirmando estarem atrasados sabe-se lá para quê. Despedi-me com um "tchau" vago e discreto enquanto eles avançavam apressados. Agora éramos dois novamente ali, e estaríamos nos despedindo em breve também. O homem com quem eu me encontrara ressaltou que aquele encontro não haveria de acontecer sob normais circunstâncias. Concordei, e disse "é o Destino". E naquele momento, eu já não tinha mais dúvidas, era isso mesmo. Meu colega olhou para o relógio - o que já significava um adeus. Ele comentou alguma coisa sobre estar tarde e continuou seu trajeto. Permaneci olhando-o. Depois virei-me de volta para meu trajeto e mergulhei novamente no mar de robôs que me rodiava.

E enquanto eu caminhava em direção ao colégio, minha mente voltava no tempo. As pessoas as quais conheci Naquela Época: as pessoas que o Tempo deixou para trás, e, acima de tudo isso, pensava na Pessoa a qual Eu e o Tempo deixamos para trás por motivos óbvios. Se havia um motivo para o encontro daquela tarde, eu o sabia muito bem. E a tal intenção me torturaria de ali em diante, até que uma atitude fosse tomada. Até que eu aprendesse a criar novas lembranças.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Puf, puf!

Noite caótica. Suo muito. Minha respiração está pesada. Já não é mais possível se tranquilizar aqui. Pois meu quarto está em chamas psicodélicas e meu corpo se agoniza mais e mais a cada segundo que se passa. É como se o inferno voltasse a me visitar depois de tantos anos de paz.

Sinto dores e desconfortos terríveis. E não importa a posição por mim tomada, nem o quanto eu lute para reconquistar meu estado de harmonia, é como estar sendo sufocado por dentro. Pois não há algo que possa ser feito, a não ser esperar a morte chegar rápida para salvar-me deste sufoco. Esta é tão cruel, mas tão cruel, que prefere assistir tudo de camarote, sem mover um dedo para me levar consigo.

De repente o cenário ao redor se transforma em um ambiente bem insano. Estou dentro de uma arte expressionista? Ou em uma cubista completamente aleatória? Não se sabe. Tudo passa rápido. Não há tempo para compreensões. Em um instantezinho várias cadeias de pensamento vão se formando e em seguida se destituindo, desfigurando os conceitos de coesão lógica.

Tanto já se passou, que o sofrimento de meu corpo mal se nota.

Eu aterrisso em um novo cenário, desta vez, um pouco mais racionalmente estabilizado. Aqui, há uma roda de pessoas adultas, em volta de uma mesa, cujos olhos se voltam a mim instantaneamente. Uma mulher de óculos e alguns homens os quais não possuem características notáveis. "Ele tem que decidir como o dinheiro será dividido entre nós", disse a mulher. Eu olho por cima de meus ombros. Sou a única pessoa deste lado. Viro-me a cabeça de volta. Todos me fitam. Nada mais é dito. Mas é só uma questão de tempo até tudo se distorcer novamente.

Todos se levantam e giram ao meu redor ordenando caoticamente que eu solucione uma partição de bens. Eu não quero fazer isso! Tampouco sei como se faz. Parem de me perseguir! Parem de requisitar-me algo que não me diz respeito! Tento fugir, mas essas cabeças falantes seguem-me voando. Espanco-as com tapas e cabeçadas. Tento espantá-las. Não dá certo. Abaixo-me, faço-me de concha e fecho os olhos. Aguento toda a dor. É minha última tentativa de fuga tomada pela razão. E nada. Nada mais acontece. Nada! Nada? Espere, o que eu acabei de dizer?

Eu acordo para a realidade ofegante. Meu corpo volta a sofrer. Estou de volta e não posso deitar a cabeça novamente, pois o caos fulminante de alguns segundos atrás está a minha espera. Portanto, levanto-me da cama rápido, pois ela é como um portal que me levará de volta àquelas cabeças. E isso é algo que não quero para mim.  Então vejo-me diante de uma questão irresolúvel: arder nestas chamas agonizantes ou ser perturbado por meus fantasmas caóticos novamente.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Pós-morte

Chame-me de monstro. Tantas atrocidades cometidas às cegas e ainda assim tamanha impunidade que chega até a me humilhar. Como me permiti feri-lo? Não importa mais se foi sem querer ou não, o controle de meus sentimentos está sob minha responsabilidade. Pois ninguém tomará essa responsabilidade em meu lugar, ou tomará? No final das contas, eu não fui capaz de enxergar os cursos intolerantes que meu comportamento percorria.

Você estava sempre certo, e eu, errado. Embora eu compreendesse que minha conduta às vezes saía de meu controle, sempre que entrávamos em conflito, dentro da minha cabeça, você tinha uma parcela de culpa por todas aquelas brigas. Pois para mim, sua pessoa se exaltava à toa em meio a causas fúteis. Eu não estava me pondo no seu lugar o bastante para perceber o quão imaturas eram minhas atitudes... e nem do quanto você abriu mão para beijar meus lábios. Pois meus impulsos, típicos da Revolução Industrial, não me mantinham devidamente acordado.

Mas a despeito de todas essas verdades, havia algo no qual nós dois, igualmente, estávamos errados: eu não estava a frente de meu tempo. Trucida-me a alma lembrar de suas observações animadoras sobre mim. Lembrar do quão [aparentemente] perfeita era minha condição de ser humano. Minha pessoa não era o que nós dois esperávamos...

"Falar com você é como falar com alguém de 30 anos [...] Você é tão bonito por fora e por dentro..."


O nosso clube secreto é tão sem vida na sua ausência. Minha cama já não terá mais a oportunidade de quebrar ao carregar o peso de nossos dois corpos juntos. Isso pode ser engraçado para quem ouve de fora, mas profundamente intrínseco para mim. A partir d'agora, essa cama será meu caixão.

E mesmo após o passar de todas essas eras mal passadas durante as quais minha compreensão acerca dos fatos aprimorou-se, meu único exemplo de par perfeito é ninguém mais, ninguém menos que você. E a insistência de sua imagem em minha mente talvez seja minha punição. Mas ainda assim, estarei longamente em débito com você.